Digitar festa pomerana no Google devolve Pomerode, em Santa Catarina, do primeiro resultado até o fim da segunda página. A festa pomerana do Espírito Santo existe, já passou da 11ª edição e atende por outro nome: Pomerfest, em Laginha, distrito de Pancas (ES). A diferença não é só de nomenclatura. As duas caem em meses diferentes, e a capixaba vem de uma comunidade que quase perdeu o território onde a festa acontece.
Quem organiza é a Associação Pomerana de Pancas, fundada em 2009 pela própria comunidade de Laginha. Além da festa, a associação mantém um grupo de danças folclóricas desde 1992, é parceira do programa que leva a língua pomerana às escolas do município e representa o povo pomerano num conselho nacional de povos tradicionais.
Sumário
Quem procura festa pomerana chega a Santa Catarina
Em 30 de setembro de 2026, as 20 primeiras posições orgânicas de festa pomerana no Google Brasil, em português, devolveram 16 resultados de conteúdo, e nenhum deles trata do Espírito Santo. O primeiro é o site oficial da festa de Pomerode, e os outros se dividem entre programação, imprensa catarinense e página de venda de ingresso.
Todo começo de ano a troca se repete. O termo festa pomerana tem 4.400 buscas por mês na média e 33.100 em janeiro, que é quando acontece a festa catarinense. Pomerfest, o nome da capixaba, tem 70 buscas por mês, com pico de 170 em julho de 2026. Quem mora no Espírito Santo e procura pelo termo genérico sai do estado sem perceber.
A Pomerfest é organizada pela comunidade de Laginha
A Associação Pomerana de Pancas no Mapa Cultural do Espírito Santo, plataforma do governo estadual, registra a entidade como fundada em 2009 pela comunidade pomerana de Laginha, distrito que fica na área de abrangência do Monumento Natural dos Pontões Capixabas. O mesmo registro descreve a Pomerfest como realização anual da associação em Laginha.
A associação faz mais do que a festa. Mantém o grupo de danças folclóricas pomeranas Edelstein, fundado em 1992, é parceira do Programa de Educação Escolar Pomerana, responsável pelo ensino da língua pomerana nas escolas do município, e representa o povo pomerano no Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais. É por esse caminho que o povo pomerano entrou na Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, na condição de povo tradicional reconhecido. No mesmo cadastro estadual a associação declara 15 áreas de atuação, 14 nomeadas e uma marcada apenas como outra, que vão de artesanato e gastronomia a patrimônio imaterial e museu. E registra atividade fora da semana da festa: uma mostra sobre os pomeranos nos Pontões Capixabas, em 2023, e o lançamento de um livro sobre as casas pomeranas, em 2025.
Na festa isso aparece em dança, música e comida. A 11ª edição ocupou três dias e duas avenidas do centro de Laginha, com café da manhã na barraca pomerana, desfile cultural no sábado, alvorada de banda de metais no domingo às 7h, encontro de carros antigos, competição de schop drink e apresentação de concertina com tocadores locais. A concertina é instrumento típico pomerano e teve apresentação própria na programação. Dança folclórica de imigração é uma das famílias que compõem o folclore capixaba, ao lado das manifestações de matriz africana como o congo.
A comunidade que faz a festa quase perdeu o território
Em 2002 o governo federal criou o Parque Nacional dos Pontões Capixabas na região onde as famílias pomeranas de Laginha viviam, e a criação da unidade ameaçou tirá-las dali. Depois de anos de mobilização da comunidade, a área foi recategorizada como monumento natural, categoria que permitiu às famílias permanecer no território que ocupavam. A associação foi fundada em 2009, no meio desse processo.
A reportagem do Século Diário sobre a décima edição, de julho de 2019, registrou que a permanência estava resolvida no papel e não na prática: o monumento natural seguia sem plano de manejo, sem conselho gestor e sem o estudo étnico-biológico da área, o que deixava indefinida a situação jurídica das famílias. A informação é de 2019 e pode ter mudado desde então.
A disputa também explica o endereço da festa. Ela acontece no distrito, e não na sede do município, porque é em Laginha que está a comunidade que a organiza e o território que ela reivindicou.
Em que mês acontece a Pomerfest?
Não há mês fixo, e é aí que a confusão com a festa catarinense sai mais cara. A 10ª edição aconteceu de 12 a 14 de julho de 2019. A 11ª edição, coberta por A Gazeta em agosto de 2023, aconteceu de 11 a 13 de agosto. Entre as duas passaram-se quatro anos e uma única edição, então a contagem de edições também não acompanha o calendário.
Até o fechamento deste texto, em 30 de setembro de 2026, não havia data publicada em fonte oficial para a próxima edição. Conferir a data com a associação ou com a prefeitura antes de fechar reserva não é preciosismo: a Festa da Polenta, em Venda Nova do Imigrante, é o caso capixaba recente de edição que não saiu, e o blog conta o motivo em post próprio.
O que conferir antes de subir para Laginha
Três coisas mudam de uma edição para outra: a data, a programação e o tema. Em 2023 a entrada foi gratuita e a festa ocupou a Avenida Presidente Vargas e a Avenida Espírito Santo, no centro de Laginha, mas nenhuma dessas informações vale como promessa para a próxima edição. Nas duas edições com programação publicada em fonte jornalística, o formato foi o mesmo: três dias, de sexta a domingo, com desfile cultural no sábado e alvorada no domingo cedo.
O que não depende de data é o resto. Laginha fica em Pancas, no noroeste capixaba, dentro da área do Monumento Natural dos Pontões Capixabas, e a língua pomerana continua sendo ensinada nas escolas do município o ano inteiro. A herança pomerana também aparece na serra, na Festa Pomerana de Santa Maria de Jetibá e em Domingos Martins, o café da manhã de colono entrou na lista de comida típica do Espírito Santo, e o roteiro maior está no guia de o que fazer no Espírito Santo.
Se você já foi a uma edição da Pomerfest, o que rendeu mais o tempo: o desfile de sábado ou a alvorada de domingo?
Foto de abertura: o grupo de danças folclóricas Edelstein, mantido pela Associação Pomerana de Pancas (APOP), em apresentação durante a Pomerfest, no distrito de Laginha, em Pancas (ES). Imagem publicada pela própria associação em sua ficha no Mapa Cultural do Espírito Santo, plataforma da Secretaria de Estado da Cultura.






