A casaca, instrumento de percussão do congo capixaba, é um bastão de madeira com uma cabeça esculpida numa das pontas e uma costela de bambu cortada em talhos no corpo. Quem toca segura o instrumento pelo pescoço e corre uma vareta sobre os talhos, e o atrito dá um som seco e intermitente que marca o tempo por cima dos tambores. A peça mede de 50 a 70 centímetros, e o Museu Vivo da Barra do Jucu, em Vila Velha (ES), a descreve como instrumento que só existe no Espírito Santo.
A casaca não tem lei própria de patrimônio: a lei estadual de 2015 protege as bandas de congo, e o instrumento entra como parte delas. Este guia mostra do que a casaca é feita, como se toca, de onde vem, onde ouvir e quem faz a peça no Espírito Santo.
Sumário
O que é casaca?
Casaca é um reco-reco de cabeça: um idiofone de raspar, em que o som sai da madeira e do bambu, sem pele nem corda. O historiador Levy Rocha, no livro sobre a viagem de D. Pedro II ao Espírito Santo reeditado pelo Arquivo Público em 2008, registra os nomes cassaca, casaca e reco-reco de cabeça. O que a separa do reco-reco comum é a cabeça de pescoço comprido, pintada com rosto, que vira o apoio da mão. No congo capixaba, ela é tocada por raspagem, e o chiado agudo dela corta o som grave dos tambores.
Do que é feita a casaca
A casaca é montada com peças separadas, cada uma de um material. A descrição do Mestre Vitalino, registrada pelo Museu Vivo da Barra do Jucu, lista madeiras leves como cacheta, cedro, pino, bambu e pendão da piteira. O artesão cola as partes, prende com tarugos, passa uma base de tinta branca e só depois pinta.
| Parte | Material | Para que serve |
|---|---|---|
| Cabeça e pescoço | Madeira esculpida | Rosto e pegada da mão |
| Corpo | Pendão da piteira | Sustenta a costela |
| Costela | Bambu com talhos | Onde a vareta raspa |
| Caixa acústica | Pita, atrás da costela | Amplia o som |
| Baqueta | Madeira resistente | Raspa os talhos |
A cabeça é a parte que mais muda de um artesão para outro. Há casacas com rosto de bigode e chapéu e outras com uma cabeça pequena, pintada de preto e de traços simples, como as do congo do Quilombo do Retiro, em Santa Leopoldina (ES). Na Barra do Jucu, Vitalino José Rego faz casacas desde 1990 e toca na Banda de Congo Mestre Honório desde 1987, segundo o cadastro dele no Mapa Cultural do Espírito Santo; o Museu Vivo atribui a ele a casaca elétrica, com captação para amplificador.

Como se toca a casaca na banda de congo
A casaca se toca na vertical, com uma mão firme no pescoço e a outra correndo a vareta sobre os talhos, para cima e para baixo. O pescoço comprido existe para isso: é a pegada que deixa o corpo livre para a raspagem. O som curto e repetido marca o tempo sobre os tambores, que dão o ritmo forte, como resume a Rede Artesol no perfil do Mestre Domingos do Congo. Quem conduz a banda é o mestre, que puxa a toada e orquestra o grupo com o apito, segundo a síntese sobre o congo do Instituto Jones dos Santos Neves.

Qual a origem do instrumento casaca?
A origem da casaca tem duas camadas, e nenhuma tem documento de fundação. Uma dissertação defendida na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2025 descreve a casaca como reinvenção do reco-reco indígena: a costela é a herança indígena e a cabeça, acrescentada pelos africanos escravizados, representa os senhores. O Mestre Domingos do Congo conta à Rede Artesol a mesma versão, e o Museu Vivo guarda a tradição oral de que os escravizados agarravam a casaca pelo pescoço e batiam nas costelas como se batessem no senhor, e que o som era o grito dele.

O registro escrito mais conhecido é do imperador. Em fevereiro de 1860, em Nova Almeida, na Serra (ES), D. Pedro II viu tocadores que ele descreveu como caboclos de raça tupi e desenhou a “cassáca” no caderno de viagem. O diário da viagem, publicado pelo Arquivo Público do Espírito Santo em 2023, compara a dança ao bendenguê dos negros e a música ao batuque do engenho. O desenho tem a mesma forma da casaca de hoje: cabeça, pescoço e costela riscada em talhos.
A lei protege as bandas de congo, não a casaca
A Lei estadual 10.363, de 6 de maio de 2015, diz no artigo 1º: “As Bandas de Congo ficam declaradas patrimônio imaterial do Estado.” A casaca entra nessa proteção como parte das bandas, e não como bem declarado à parte. Em 15 de outubro de 2026, a busca pelo termo casaca no sistema de legislação da Assembleia Legislativa devolveu zero atos, e por isso a ideia, repetida em páginas sobre o instrumento, de que a casaca seria o primeiro patrimônio imaterial do estado confunde a peça com a manifestação. No plano nacional, as associações de bandas entregaram o pedido de registro do congo ao Iphan em junho de 2024, como conta o guia do pedido de registro nacional.
Onde ver e onde comprar uma casaca
A casaca se compra de quem a faz. O Museu Vivo informa que Vitalino vende peças avulsas, como lembrança, e em lote para formar bandas; o cadastro dele no Mapa Cultural e a página do museu são os caminhos públicos para chegar até ele, e a Barra do Jucu está no roteiro de o que fazer em Vila Velha. O Mestre Domingos do Congo, com perfil na Rede Artesol, trabalha em Guarapari (ES). Nenhuma das fontes publica preço, que depende do tamanho, da madeira e da pintura.
Para ouvir a casaca, o caminho é o cortejo de uma banda de congo. Na Serra, as bandas acompanham todo o ciclo da Festa de São Benedito, da Cortada à Derrubada do mastro, segundo a Câmara Municipal; em 2025, a programação da Prefeitura da Serra abriu com a Cortada do Mastro em 14 de dezembro e teve desfile das bandas de congo mirim em 20 de dezembro, e a data de 2026 sai na página da prefeitura. Fora dela, os cortejos seguem as festas de santo de cada comunidade; o guia de folclore capixaba mostra o resto desse calendário, e o de artesanato capixaba reúne os outros ofícios de mão do estado.
Fontes: Museu Vivo da Barra do Jucu (2017); Mapa Cultural do Espírito Santo (2020); Rede Artesol (21/06/2024); Instituto Jones dos Santos Neves; Assembleia Legislativa do Espírito Santo, Lei 10.363/2015 e consulta de 15/10/2026; Arquivo Público do Espírito Santo, diário de viagem de D. Pedro II, organizado por Fernando Achiamé (2023); Século Diário (26/06/2024); dissertação de Mariza Trindade na Ufes (2025); Levy Rocha, Viagem de Pedro II ao Espírito Santo, Arquivo Público do Espírito Santo (2008); Alexandre Maia Ferreira, XXVII EBRAPEM, SBEM (2023); Prefeitura e Câmara Municipal da Serra, Festa de São Benedito (2025). Imagem de abertura: casaca e baqueta do Quilombo do Retiro, de Diana S. Souza (Santa Casa da Bahia), via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0, recortada e com cor ajustada. Fotos: casaca na Igreja dos Reis Magos, de Denis Rizzoli, CC BY-SA 3.0, recortada e com cor ajustada; banda de congo na Serra, de Gustavo Azevedo, CC BY-SA 4.0, recortada e com cor ajustada, ambas via Wikimedia Commons. Desenho da cassáca feito por D. Pedro II em 1860, domínio público.
Obs.: fonte consultada em 15/10/2026, sem link ativo na publicação: Mapa Cultural do Espírito Santo (mapa.cultura.es.gov.br).






