Casaca, instrumento do congo capixaba: o que é e de onde vem

As partes da casaca, o jeito de segurar e tocar, o desenho de D. Pedro II em 1860 e o que a lei protege.

A casaca, instrumento de percussão do congo capixaba, é um bastão de madeira com uma cabeça esculpida numa das pontas e uma costela de bambu cortada em talhos no corpo. Quem toca segura o instrumento pelo pescoço e corre uma vareta sobre os talhos, e o atrito dá um som seco e intermitente que marca o tempo por cima dos tambores. A peça mede de 50 a 70 centímetros, e o Museu Vivo da Barra do Jucu, em Vila Velha (ES), a descreve como instrumento que só existe no Espírito Santo.

A casaca não tem lei própria de patrimônio: a lei estadual de 2015 protege as bandas de congo, e o instrumento entra como parte delas. Este guia mostra do que a casaca é feita, como se toca, de onde vem, onde ouvir e quem faz a peça no Espírito Santo.

O que é casaca?

Casaca é um reco-reco de cabeça: um idiofone de raspar, em que o som sai da madeira e do bambu, sem pele nem corda. O historiador Levy Rocha, no livro sobre a viagem de D. Pedro II ao Espírito Santo reeditado pelo Arquivo Público em 2008, registra os nomes cassaca, casaca e reco-reco de cabeça. O que a separa do reco-reco comum é a cabeça de pescoço comprido, pintada com rosto, que vira o apoio da mão. No congo capixaba, ela é tocada por raspagem, e o chiado agudo dela corta o som grave dos tambores.

Do que é feita a casaca

A casaca é montada com peças separadas, cada uma de um material. A descrição do Mestre Vitalino, registrada pelo Museu Vivo da Barra do Jucu, lista madeiras leves como cacheta, cedro, pino, bambu e pendão da piteira. O artesão cola as partes, prende com tarugos, passa uma base de tinta branca e só depois pinta.

ParteMaterialPara que serve
Cabeça e pescoçoMadeira esculpidaRosto e pegada da mão
CorpoPendão da piteiraSustenta a costela
CostelaBambu com talhosOnde a vareta raspa
Caixa acústicaPita, atrás da costelaAmplia o som
BaquetaMadeira resistenteRaspa os talhos
Partes da casaca segundo o Museu Vivo da Barra do Jucu, página de 2017.

A cabeça é a parte que mais muda de um artesão para outro. Há casacas com rosto de bigode e chapéu e outras com uma cabeça pequena, pintada de preto e de traços simples, como as do congo do Quilombo do Retiro, em Santa Leopoldina (ES). Na Barra do Jucu, Vitalino José Rego faz casacas desde 1990 e toca na Banda de Congo Mestre Honório desde 1987, segundo o cadastro dele no Mapa Cultural do Espírito Santo; o Museu Vivo atribui a ele a casaca elétrica, com captação para amplificador.

Casaca com cabeça esculpida de bigode e chapéu branco e costela de bambu em talhos, encostada numa parede branca da Igreja dos Reis Magos, em Nova Almeida, na Serra (ES)
Casaca de cabeça esculpida na Igreja dos Reis Magos, em Nova Almeida, em dezembro de 2012.

Como se toca a casaca na banda de congo

A casaca se toca na vertical, com uma mão firme no pescoço e a outra correndo a vareta sobre os talhos, para cima e para baixo. O pescoço comprido existe para isso: é a pegada que deixa o corpo livre para a raspagem. O som curto e repetido marca o tempo sobre os tambores, que dão o ritmo forte, como resume a Rede Artesol no perfil do Mestre Domingos do Congo. Quem conduz a banda é o mestre, que puxa a toada e orquestra o grupo com o apito, segundo a síntese sobre o congo do Instituto Jones dos Santos Neves.

Tocadores de banda de congo na Serra (ES), de chapéu de palha e camiseta vinho, segurando casacas de cabeça esculpida durante festa à noite
Casacas numa festa de congo na Serra, em janeiro de 2018.

Qual a origem do instrumento casaca?

A origem da casaca tem duas camadas, e nenhuma tem documento de fundação. Uma dissertação defendida na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2025 descreve a casaca como reinvenção do reco-reco indígena: a costela é a herança indígena e a cabeça, acrescentada pelos africanos escravizados, representa os senhores. O Mestre Domingos do Congo conta à Rede Artesol a mesma versão, e o Museu Vivo guarda a tradição oral de que os escravizados agarravam a casaca pelo pescoço e batiam nas costelas como se batessem no senhor, e que o som era o grito dele.

Desenho a lápis de uma casaca feito por D. Pedro II em 1860, com a cabeça no alto e a costela em talhos, e a palavra cassáca escrita ao lado
A cassáca desenhada por D. Pedro II em Nova Almeida, em fevereiro de 1860.

O registro escrito mais conhecido é do imperador. Em fevereiro de 1860, em Nova Almeida, na Serra (ES), D. Pedro II viu tocadores que ele descreveu como caboclos de raça tupi e desenhou a “cassáca” no caderno de viagem. O diário da viagem, publicado pelo Arquivo Público do Espírito Santo em 2023, compara a dança ao bendenguê dos negros e a música ao batuque do engenho. O desenho tem a mesma forma da casaca de hoje: cabeça, pescoço e costela riscada em talhos.

A lei protege as bandas de congo, não a casaca

A Lei estadual 10.363, de 6 de maio de 2015, diz no artigo 1º: “As Bandas de Congo ficam declaradas patrimônio imaterial do Estado.” A casaca entra nessa proteção como parte das bandas, e não como bem declarado à parte. Em 15 de outubro de 2026, a busca pelo termo casaca no sistema de legislação da Assembleia Legislativa devolveu zero atos, e por isso a ideia, repetida em páginas sobre o instrumento, de que a casaca seria o primeiro patrimônio imaterial do estado confunde a peça com a manifestação. No plano nacional, as associações de bandas entregaram o pedido de registro do congo ao Iphan em junho de 2024, como conta o guia do pedido de registro nacional.

Onde ver e onde comprar uma casaca

A casaca se compra de quem a faz. O Museu Vivo informa que Vitalino vende peças avulsas, como lembrança, e em lote para formar bandas; o cadastro dele no Mapa Cultural e a página do museu são os caminhos públicos para chegar até ele, e a Barra do Jucu está no roteiro de o que fazer em Vila Velha. O Mestre Domingos do Congo, com perfil na Rede Artesol, trabalha em Guarapari (ES). Nenhuma das fontes publica preço, que depende do tamanho, da madeira e da pintura.

Para ouvir a casaca, o caminho é o cortejo de uma banda de congo. Na Serra, as bandas acompanham todo o ciclo da Festa de São Benedito, da Cortada à Derrubada do mastro, segundo a Câmara Municipal; em 2025, a programação da Prefeitura da Serra abriu com a Cortada do Mastro em 14 de dezembro e teve desfile das bandas de congo mirim em 20 de dezembro, e a data de 2026 sai na página da prefeitura. Fora dela, os cortejos seguem as festas de santo de cada comunidade; o guia de folclore capixaba mostra o resto desse calendário, e o de artesanato capixaba reúne os outros ofícios de mão do estado.

Fontes: Museu Vivo da Barra do Jucu (2017); Mapa Cultural do Espírito Santo (2020); Rede Artesol (21/06/2024); Instituto Jones dos Santos Neves; Assembleia Legislativa do Espírito Santo, Lei 10.363/2015 e consulta de 15/10/2026; Arquivo Público do Espírito Santo, diário de viagem de D. Pedro II, organizado por Fernando Achiamé (2023); Século Diário (26/06/2024); dissertação de Mariza Trindade na Ufes (2025); Levy Rocha, Viagem de Pedro II ao Espírito Santo, Arquivo Público do Espírito Santo (2008); Alexandre Maia Ferreira, XXVII EBRAPEM, SBEM (2023); Prefeitura e Câmara Municipal da Serra, Festa de São Benedito (2025). Imagem de abertura: casaca e baqueta do Quilombo do Retiro, de Diana S. Souza (Santa Casa da Bahia), via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0, recortada e com cor ajustada. Fotos: casaca na Igreja dos Reis Magos, de Denis Rizzoli, CC BY-SA 3.0, recortada e com cor ajustada; banda de congo na Serra, de Gustavo Azevedo, CC BY-SA 4.0, recortada e com cor ajustada, ambas via Wikimedia Commons. Desenho da cassáca feito por D. Pedro II em 1860, domínio público.

Obs.: fonte consultada em 15/10/2026, sem link ativo na publicação: Mapa Cultural do Espírito Santo (mapa.cultura.es.gov.br).

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