Um caldeirão suspenso gira sobre a multidão, a contagem regressiva vem do palco e cerca de uma tonelada de polenta amarela despenca de uma vez sobre a mesa montada embaixo. Em segundos, milhares de pessoas avançam com pratos, mãos e potes para pegar a sua parte. Esse é o tombo da polenta, o momento que dá identidade à maior festa ítalo-brasileira do Espírito Santo.
A cena se repete desde 1979 em Venda Nova do Imigrante – ES, sempre em outubro. Abaixo, como o tombo funciona, de onde a festa veio, quem a produz e por que a edição prevista para 2026 não vai acontecer.
Sumário
Como funciona o tombo da polenta
O tombo é o despejo público de um caldeirão gigante de polenta sobre uma mesa comprida, diante do público, e é descrito pela própria organização como o grande símbolo do evento. A polenta é cozida ali, em fogo aberto, mexida com pás de madeira por várias pessoas ao mesmo tempo, porque a massa engrossa e vira um esforço físico de braço.
O ponto exige atenção: polenta mole demais escorre da mesa e some antes de ser servida; firme demais não desprende do caldeirão na hora de virar. O tombo acontece uma vez, sem ensaio e sem segunda chance, o que explica a tensão de quem está segurando as cordas e a reação da plateia quando a massa desce inteira.
A polenta que se come na festa não é apenas a do tombo. O cardápio traz versões servidas no prato, com molho de funghi, com linguiça e com outros acompanhamentos, além de pratos típicos preparados pelas famílias do município. Quem chega esperando um evento de um prato só encontra uma cozinha inteira, e é comum o visitante comer antes do tombo e voltar depois para pegar a polenta despejada.
Vale entender o gesto para além do espetáculo. Servir de uma vez, para todo mundo, sem prato individual e sem ordem de chegada, é uma encenação de fartura compartilhada, e é essa leitura que sustenta o ritual há mais de quatro décadas. A polenta é comida de origem humilde, feita de fubá de milho, e virou o centro de uma festa justamente por isso.
De onde veio a festa
A Festa da Polenta foi idealizada pelo padre Cleto Caliman e acontece desde 1979, organizada em torno de quatro valores que a própria associação lista: a celebração da cultura italiana, a união entre as famílias, a solidariedade e o voluntariado. A festa nasceu ligada à paróquia, e essa origem ainda organiza o formato.
O contexto é a colonização italiana da região serrana capixaba, iniciada na segunda metade do século 19. Venda Nova do Imigrante – ES carrega a origem no próprio nome, e a polenta, o vinho, o socol e a massa caseira compõem uma cozinha doméstica que virou identidade municipal antes de virar produto turístico.
Uma festa erguida por 1.500 voluntários
Mais de 1.500 voluntários vendanovenses trabalham na produção da festa, segundo a organização. Não é mão de obra contratada nem terceirizada: são moradores que assumem cozinha, serviço, limpeza, portaria e logística durante os dias de evento, num município de porte pequeno.
A estrutura é administrada pela Afepol, a associação responsável pelo evento, que mantém programação cultural ao longo do ano inteiro e não apenas em outubro. O cardápio vai muito além da polenta, com pratos típicos preparados pelas famílias locais, e a festa acontece no Polentão, o pavilhão construído para abrigá-la.
Esse desenho, de festa comunitária com escala de grande evento, é o que a diferencia de uma feira gastronômica comum. A renda é revertida para ações da própria comunidade, e a participação como voluntário é aberta a quem se cadastra.
Por que a edição de 2026 foi cancelada
A 48ª Festa da Polenta, prevista para 2026, foi cancelada. O motivo, informado pela Afepol, são as obras de reforma do Polentão, cujo prazo de conclusão ainda não está definido. A associação classifica a decisão como necessária e temporária.
Duas informações práticas saem daí. A primeira é que quem planejava a viagem para outubro de 2026 precisa refazer o roteiro, porque não haverá tombo da polenta neste ano. A segunda é que as demais atividades culturais da Afepol seguem no calendário normalmente, então a cultura ítalo-brasileira continua acessível ao visitante em outras datas.
Como o prazo da obra não está fechado, também não há data confirmada para o retorno da festa. Antes de fechar hospedagem para uma edição futura, vale conferir o calendário oficial da associação.
O que fazer em Venda Nova do Imigrante – ES
A cidade não depende da festa para receber visitante. É um dos destinos de agroturismo mais consolidados do país, com propriedades rurais que abrem as porteiras para visita, venda direta e refeição: produção de socol, queijo, vinho, geleia, biscoito, café e massa caseira, quase sempre com a família recebendo no próprio quintal.
O socol merece parada própria. É um embutido de lombo suíno curado e maturado por meses, feito na região por famílias de origem italiana, e vendido direto na propriedade em peças inteiras ou fatiado. Comprar socol de produtor é diferente de comprar em mercado: a peça costuma vir com o nome de quem fez, e o preço varia com o tempo de maturação.
O município fica na BR-262 e integra as montanhas capixabas, o que permite combinar a visita com Pedra Azul – ES, a poucos quilômetros pela mesma estrada. Dois dias dão conta das duas paradas sem correria, com agroturismo num dia e serra no outro.
O próximo passo, para quem já tinha a viagem no radar, é inverter a ordem: em vez de escolher a data pela festa, escolha o roteiro rural e acompanhe o calendário da Afepol para a retomada. A cidade que produz a polenta continua aberta, mesmo no ano em que o caldeirão não vai virar.
Imagem de capa: Faixa da Festa da Polenta, em Venda Nova do Imigrante – ES, foto de HVL, via Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0. A imagem foi redimensionada e recortada.

