Venda Nova do Imigrante - ES é a Capital Nacional do Agroturismo

O título veio por lei federal em 2023, mas as porteiras abertas começaram em 1987. Como funciona a visita, o que provar e como a cidade da serra se organiza para receber.

Desde 25 de julho de 2023, Venda Nova do Imigrante – ES é, por lei federal, a Capital Nacional do Agroturismo. O título formalizou uma prática que as famílias de origem italiana da cidade começaram em 1987, abrindo as porteiras para vender queijo, embutido e café direto do quintal, quando a atividade nem tinha nome no Brasil.

A prática virou política municipal e hoje sustenta um calendário de visitas que funciona o ano inteiro, com ou sem festa no Polentão. Abaixo, o que o título significa na porteira: como a visita funciona, o que provar e como a cidade chegou até aqui.

O título veio por lei, o agroturismo veio antes

A Lei 14.636, sancionada em 25 de julho de 2023, conferiu o título de Capital Nacional do Agroturismo ao município. O reconhecimento em lei chegou por último: a Abratur, associação brasileira de turismo rural, já usava a designação desde 2005, pelo pioneirismo de uma atividade que começou ali em 1987. O próprio nome veio do italiano “agriturismo”, e foi na Itália que os primeiros produtores buscaram o modelo, segundo a página oficial da prefeitura.

O tamanho da operação está medido pela prefeitura: 70 propriedades rurais envolvidas, 300 famílias e 1.500 pessoas atuando diretamente no agroturismo. A régua fica mais clara com o Censo: são 23.831 moradores em 2022, segundo o IBGE, em 185,9 km² de território. Numa cidade desse porte, receber visitante não é um nicho, é uma fatia real da economia das famílias.

Como funciona a visita às propriedades

O formato clássico é a venda direta com degustação. A família recebe na propriedade, mostra a produção e serve o que faz: café, queijo, socol, doce, geleia, licor. Em muitas casas quem atende é o próprio produtor, e a conversa com quem faz é parte do passeio, padrão que se repete nas avaliações públicas das propriedades mais visitadas. As fichas dessas propriedades nas plataformas de avaliação estimam 1 a 2 horas por parada, o que na prática limita o dia a 3 ou 4 visitas com almoço no meio.

A leitura de cerca de 20 avaliações de visitantes, escritas entre 2021 e 2026, ajusta as expectativas em 3 pontos. O primeiro é o formato: boa parte das paradas é loja de fazenda com degustação, não trilha nem colheita, e quem chega esperando atividade rural longa se frustra, enquanto quem vai para provar, conversar e comprar sai satisfeito. O segundo é o preço, que divide opiniões: parte dos visitantes acha os produtos caros, parte considera o valor justo pela qualidade, e a degustação varia de generosa a controlada conforme a casa e o movimento. O terceiro é o trajeto: para propriedades fora do centro, o aplicativo de mapa às vezes manda por estrada de terra cheia de curvas, e a orientação repetida por quem já foi é pedir o caminho por dentro da cidade.

Loja de propriedade de agroturismo em Venda Nova do Imigrante - ES, com prateleiras de conservas, garrafas de licor, socol ensacado e mesa de degustação
A venda de fazenda com mesa de degustação, o formato clássico da visita. Registro de 2018 do acervo do Ministério do Turismo, foto de Vitor Jubini/MTur.

O que provar, do socol ao limoncello

O produto mais conhecido é o socol, embutido de lombo suíno com indicação geográfica registrada. A lista oficial segue longa: queijo tipo resteia, de textura macia e sabor adocicado; puína, uma ricota cremosa; limoncello de limão siciliano; grappa, o destilado do bagaço; caponata de berinjela; mais doces, biscoitos, vinho, cachaça e fubá de moinho de pedra.

O café é capítulo à parte. A lavoura está em 90% das propriedades rurais do município, segundo a prefeitura, e aqui o grão é o arábica de altitude, cultivado entre 630 e 1.550 m, o contraponto de serra ao café conilon que domina a baixada capixaba. Café coado na hora, harmonizado com queijo da casa, costuma ser o encerramento da visita. Nas avaliações, a compra mais citada depois do socol é o doce de leite, seguido de queijos maturados e geleias, quase sempre com a observação de que a degustação decidiu a escolha.

Da colônia do Vêneto à emancipação de 1988

A ocupação mais antiga registrada é indígena, provavelmente do povo Puri: os primeiros imigrantes encontraram muitos objetos deixados por eles na região. Depois vieram as grandes fazendas de café de portugueses, com nomes como Providência, Lavrinhas, Tapera e Bananeiras, tocadas por mão de obra escravizada e abandonadas depois da abolição. A colonização italiana começou por volta de 1892, com 18 a 20 famílias vindas do Vêneto, no norte da Itália, e os sobrenomes delas ainda assinam as porteiras: Perim, Caliman, Carnielli, Altoé, Brioschi, entre outros.

A comunidade cresceu em regime de mutirão: primeira escola em 1922, linha telefônica em 1925, cooperativa agrária de Lavrinhas em 1927 e os primeiros 20 km de estrada abertos pelos próprios moradores, conforme o histórico da prefeitura. A BR-262 cortou o distrito em 1957 e ligou a região a Vitória e Belo Horizonte. A emancipação veio em 10 de maio de 1988, desmembrando o município de Conceição do Castelo. Hoje o território reúne a sede, os distritos de São João de Viçosa e Alto Caxixe e mais 12 comunidades rurais, e quem nasce ali é venda-novense, conforme o registro do IBGE.

A Festa da Polenta e o calendário da cidade

O evento mais conhecido da cidade é a Festa da Polenta, criada em 1979 e realizada sempre em outubro no Polentão. A edição de 2026 foi cancelada para a demolição e reconstrução do pavilhão, ainda sem prazo de conclusão, e o guia da festa no portal detalha o que muda para quem planejava a viagem.

O ponto prático: o agroturismo não depende da festa. As propriedades recebem o ano inteiro, a programação cultural da Afepol continua no calendário, e a cidade segue aberta no ano em que o caldeirão não vai virar.

Como chegar e como encaixar no roteiro da serra

A cidade fica às margens da BR-262, a rodovia que liga Vitória a Belo Horizonte, na mesma sequência serrana de Domingos Martins – ES e do distrito de Pedra Azul. O município integra o circuito das montanhas capixabas, com altitude que varia de 630 a 1.550 m, a razão das manhãs de neblina no vale que aparecem na foto de capa. Para dormir, a base local é de pousadas de porte pequeno, muitas dentro das próprias propriedades rurais, tema que merece guia próprio e ficará para outro post.

Um fim de semana resolve bem: agroturismo num dia, com 3 ou 4 propriedades e almoço típico, e serra no outro, entre Pedra Azul e os mirantes da própria cidade. A regra que as avaliações ensinam serve de fecho: vá com fome, com espaço no porta-malas e sem pressa, porque a conversa na porteira é o que separa a visita de uma ida ao mercado.

Imagem de capa: vista de Venda Nova do Imigrante – ES a partir do Mirante da Torre, foto de Deusdete Zandonadi, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada. Imagem de corpo: venda de fazenda no Sítio Lorenção, foto de Vitor Jubini/MTur, via Wikimedia Commons, domínio público (PDM 1.0), recortada.

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