Domingos Martins – ES: a serra alemã a 42 km de Vitória

Veja o caminho pela BR-262, o casarão da Casa de Cultura, os distritos de Pedra Azul e as festas de origem alemã da serra capixaba.

Dá para trocar o calor da Grande Vitória por frio de montanha em menos de uma hora de estrada? Domingos Martins – ES responde que sim: a sede fica a cerca de 42 km da capital, com acesso pela BR-262, segundo a Secretaria de Turismo do Espírito Santo. A proximidade explica o hábito capixaba do bate-volta, mas a cidade guarda mais do que clima ameno. Foi ali que 39 famílias alemãs fundaram, em 1847, a primeira colônia alemã do estado, e essa origem segue visível no idioma falado nos distritos, na arquitetura do centro e no cardápio dos restaurantes. Este guia percorre o caminho desde a capital, a história da colônia, o centro de Campinho, os distritos que levam a Pedra Azul e a época certa para subir a serra.

Onde fica a cidade e como chegar

Domingos Martins fica na região serrana do Espírito Santo, a cerca de 42 km de Vitória – ES, com acesso principal pela BR-262, segundo a página da cidade no Descubra o Espírito Santo, a plataforma oficial de turismo do governo estadual. Para quem sai da Grande Vitória, é a porta de entrada mais próxima do circuito das montanhas capixabas, e a distância curta fez do bate-volta o formato mais comum de primeira visita.

A conta do dia, porém, precisa considerar o tamanho do território. A sede resolve o passeio de centro histórico, cafés e museu, tudo a pé. Já os atrativos de interior ficam em distritos próprios, estrada adiante, e pedem mais tempo de carro. Decidir antes de sair se o destino é o centro ou o alto da serra evita a frustração de tentar os dois no mesmo dia.

Da colônia de 1847 ao nome de 1921

A colonização começou com um recrutamento. Em 1846, o governo imperial enviou representantes à região montanhosa do Hunsrück, na Alemanha, para convencer famílias a emigrar, de acordo com o histórico publicado pelo Descubra o Espírito Santo. O primeiro grupo chegou a Vitória em 21 de dezembro de 1846 e, em 27 de janeiro de 1847, 39 famílias, 23 católicas e 16 luteranas, se instalaram às margens do rio Jucu Braço Norte, na área que os indígenas botocudos chamavam de Cuité. Nascia a Colônia de Santa Isabel, a primeira colônia alemã do Espírito Santo.

A expansão pelas montanhas formou dois núcleos com perfis distintos: Santa Isabel, de maioria católica, onde a igreja de São Bonifácio foi erguida em 1852, e Campinho, de maioria luterana, onde os colonos começaram a construir seu templo entre 1858 e 1860. A emancipação veio em 1893, com a separação de Viana, e o nome atual chegou em 1921, em homenagem a Domingos José Martins, capixaba que liderou a Revolução Pernambucana de 1817. Hoje o município tem 35.416 moradores, segundo o Censo 2022 do IBGE, espalhados por 1.229,21 km² que vão da sede aos distritos de altitude.

O que fazer no centro de Campinho

O centro cabe num passeio a pé, e a referência para começar é a Casa de Cultura e Museu Histórico, a primeira Casa da Cultura do Espírito Santo, inaugurada em 17 de dezembro de 1983 num casarão de 1915 construído por Augusto Schwambach, conforme a ficha da cidade no portal estadual de turismo. O acervo reúne fotografias, documentos, móveis e objetos das famílias imigrantes, caso de uma vitrola RCA Victor de 1904 que ainda funciona e do primeiro rádio da cidade, fabricado na Holanda em 1937. O casarão, o mesmo da foto de capa deste post, também funciona como ponto de informações turísticas, o que ajuda a organizar o resto do roteiro.

Dali, o passeio segue pela rua João Batista Wernersbach, que os moradores chamam de Rua de Lazer, com restaurantes, cafés e lojas em sequência. A praça Dr. Arthur Gerhardt e a praça da Biquinha completam o trecho plano, e a Igreja Evangélica de Confissão Luterana lembra o lado protestante da colônia, aquele mesmo templo que a comunidade de Campinho ergueu no século 19. Quem quiser aprofundar a camada histórica soma o Museu da Colonização Alemã e o Marco da Colonização, ambos listados entre os atrativos oficiais do município.

Pedra Azul, Aracê e os distritos do interior

O cartão-postal do município não fica no centro: a Pedra Azul e o parque estadual que a protege pertencem ao interior de Domingos Martins, na região de altitude onde também está a Rota do Lagarto, a estrada cênica de restaurantes e hospedagens. A área tem história própria dentro da colonização: os italianos chegaram a partir de 1859, em maior número depois de 1875, e se instalaram sobretudo em Aracê e Pedra Azul, segundo o histórico oficial do estado.

Outros dois distritos, Melgaço e Paraju, receberam os pomeranos vindos do norte da antiga Prússia, e neles o idioma pomerano segue em uso, ao lado de costumes como os casamentos tradicionais e a arquitetura típica. É essa distribuição que explica a lista de idiomas que o município ainda preserva: alemão, hunsrückisch, pomerano e italiano seguem falados por muitas famílias, segundo o portal estadual. Para o visitante, os distritos são também o território do agroturismo, com propriedades rurais que vendem queijos, geleias e licores direto da produção.

Qual a melhor época para visitar?

O ano inteiro funciona, e o inverno concentra o movimento: é a temporada em que o clima de montanha vira o próprio atrativo, segundo a página oficial de turismo do estado. Quem prefere a cidade cheia mira o calendário de festas, que inclui a Sommerfest, festival da imigração alemã, o Festival Internacional de Inverno de Música Erudita e Popular, a Festa do Morango, a Blumenfest, dedicada às flores, e o Brilho de Natal no fim do ano. As datas e a programação mudam a cada edição, então este post não fixa mês de propósito: confirme nos canais oficiais do município antes de fechar hospedagem.

Quem monta um roteiro maior de serra costuma combinar a cidade com Santa Teresa, no extremo oposto da região serrana, trocando a herança alemã pela italiana no mesmo fim de semana prolongado. No sentido inverso, dá para descer da serra direto para o litoral e fechar a viagem com praia, um contraste que poucos estados oferecem em tão poucos quilômetros.

A mesa que desceu do navio

A herança dos imigrantes aparece inteira no cardápio. Da vertente alemã vêm o eisbein, o joelho de porco, o kassler, o chucrute, as linguiças artesanais e o apfelstrudel de sobremesa, pratos listados pela página oficial de turismo entre os típicos do município. Da vertente italiana vêm as massas e a polenta, a mesma que a serra celebra na Festa da Polenta de Venda Nova do Imigrante – ES. Entre um prato e outro, os cafés coloniais e as agroindústrias familiares completam a mesa com queijos, biscoitos, geleias, chocolates, licores e vinhos de produção local.

A serra que fala mais de uma língua

Poucas cidades condensam tanta serra em tão pouca estrada: 42 km separam a capital de um município que guarda a primeira colônia alemã do estado, idiomas de imigração ainda falados em casa e um dos cartões-postais mais famosos do estado. Para a primeira ida, o roteiro mínimo é simples: centro de Campinho pela manhã, almoço na Rua de Lazer e a tarde nos distritos altos. Se você já subiu a BR-262, fica a pergunta de quem planeja a volta: o que te segurou mais tempo, o casarão da Casa de Cultura ou a estrada da Rota do Lagarto?

Foto de capa: Casa de Cultura e Museu Histórico, no centro de Domingos Martins – ES, por Fernando Madeira/MTur, via Wikimedia Commons, domínio público (Public Domain Mark 1.0), recortada.

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