Santa Teresa – ES foi a primeira cidade fundada por italianos no Brasil

Conheça o parque dos beija-flores do INMA, as vinícolas do Caravaggio e a época certa para subir a serra teresense.

A Lei Federal 13.617, de 2017, colocou em texto de lei um título que os documentos do Arquivo Público do Espírito Santo já sustentavam: Santa Teresa – ES é a primeira cidade fundada por italianos no Brasil. O rótulo histórico, no entanto, explica só metade do que a cidade virou. O mesmo município de serra abriga o instituto federal que pesquisa a Mata Atlântica, responde pela maior parte do vinho capixaba e mantém um centro pequeno o bastante para se andar a pé entre cantina, museu e igreja matriz. Este guia percorre a história da imigração de 1874, o parque dos beija-flores, as vinícolas do Circuito Caravaggio e a época certa para subir a serra.

A cidade que os italianos fundaram em 1875

A história começa num navio. Em 3 de janeiro de 1874, o veleiro La Sofia deixou o porto de Gênova com 388 imigrantes e atracou em Vitória em 17 de fevereiro, depois de 45 dias de mar. Dali, as famílias seguiram de barco até Santa Cruz e subiram a serra abrindo picada, até se fixarem no vale onde o núcleo urbano seria assentado em 1875. O registro que sustenta o pioneirismo é prosaico: um pedido de ressarcimento de despesas datado de outubro de 1874, assinado por um colono da região, é o documento mais antigo a comprovar a presença italiana no lugar, segundo o Arquivo Público do Espírito Santo. Foi com base nesse acervo que a Lei 13.617, sancionada em 11 de janeiro de 2017, reconheceu a cidade como o primeiro núcleo permanente da imigração italiana no país.

Essa origem não ficou no papel. Os sobrenomes vênetos e trentinos seguem pintados nos portões, e a construção mais antiga da cidade continua de pé: a Casa Lambert, erguida em 1875 pelos irmãos imigrantes Antônio e Virgílio Lambert em estuque, a técnica também chamada de pau a pique, é tombada como patrimônio histórico estadual desde 1985, segundo a Secretaria de Turismo do município. Em frente a ela, a capela de Nossa Senhora da Conceição, de 1899, guarda uma imagem da santa esculpida em madeira por Antônio Lambert. Nas semanas de festa, as bandeiras verde, branca e vermelha tomam os postes da ladeira principal, a mesma da foto de capa deste post.

Onde fica e como chegar

Santa Teresa fica na região serrana do Espírito Santo, a cerca de 80 km de Vitória – ES, num trajeto de aproximadamente 1h30 de carro. O acesso se dá pelas rodovias estaduais que ligam a cidade à Grande Vitória, com a ES-261 como via principal da subida, segundo a página oficial de turismo do estado. No mapa da serra, a cidade fica ao norte do circuito formado pelas montanhas capixabas, o que permite dois roteiros distintos: quem sobe por Santa Teresa explora o trecho teresense e volta no mesmo dia, e quem tem mais tempo atravessa a serra para completar o outro lado.

Um aviso de estrada: a subida é de curvas encadeadas e paisagem de vale, do tipo que pede viagem com luz do dia. Chegar ainda de manhã muda o aproveitamento do roteiro, porque os principais atrativos do centro fecham no fim da tarde. A distância curta da capital permite bate-volta, e muita gente conhece a cidade assim; o pernoite, porém, é o que abre espaço para o Circuito Caravaggio e para as cachoeiras da zona rural, que não cabem num único dia junto com os museus do centro.

O que visitar: beija-flores, museus e Caravaggio

O ponto de partida é o parque do Museu de Biologia Professor Mello Leitão, fundado em 26 de junho de 1949 pelo naturalista teresense Augusto Ruschi. O nome homenageia o zoólogo Cândido de Mello Leitão, mentor que abriu a Ruschi as portas do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Mantido como instituição particular por 34 anos, o museu passou ao governo federal em 1983 e, em 2014, virou a sede do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), instituto federal de pesquisa dedicado ao bioma, conforme o histórico institucional publicado pelo próprio órgão. O parque abre de terça a domingo, das 8h às 17h, com entrada gratuita; as visitas guiadas acontecem de terça a sexta, em 4 horários fixos (8h30, 10h, 13h30 e 15h), mediante agendamento, segundo a página de serviços do governo federal, consultada em julho de 2026. Pelo mesmo serviço, grupos grandes são divididos em turmas de até 25 pessoas, e o pedido de agendamento costuma ser respondido em 1 dia útil. O endereço ajuda no roteiro: o parque fica no centro, ao lado da praça Augusto Ruschi, o que permite emendar a visita com a caminhada pelo casario histórico.

Nos relatos de quem visita, a cena mais repetida é a dos bebedouros: quem fica parado alguns minutos vê beija-flores a menos de 20 cm do rosto, e é esse encontro que justifica o apelido de Terra dos Beija-flores registrado no cadastro estadual de turismo. Dois avisos práticos também se repetem: reformas e fechamentos sanitários já tiraram setores do parque do circuito em vários períodos, então vale confirmar o que está aberto antes de viajar por causa dele; e a visita rende de 1 hora a 1 hora e meia, o que faz do museu uma parte do dia, não o dia inteiro.

O resto do roteiro se distribui entre o centro e a zona rural:

  • Casa Lambert: a casa de memória da família pioneira abre de sexta a domingo e nos feriados, das 8h às 11h e das 12h30 às 15h30, segundo a agenda municipal vigente em julho de 2026.
  • Museu da Cultura e Imigração Italiana: acervo de objetos, fotografias e documentos das famílias fundadoras, no centro da cidade.
  • Rua do Lazer: o polo gastronômico do centro, com restaurantes de massas e mesas na calçada, a poucos passos da igreja matriz.
  • Circuito Caravaggio: estrada rural que enfileira vinícolas, cervejarias artesanais e a rampa de voo livre com vista para o vale.
  • Mirante do Vale do Canaã: a vista aberta do vale que aparece nas fotos clássicas da região, na saída da cidade.
  • Cachoeiras e reservas: quedas como a do Country Club, a Estação Biológica Santa Lúcia e a Reserva Biológica Augusto Ruschi completam o lado de natureza do município.

Vinho, café e a mesa italiana

Santa Teresa concentra 6 vinícolas, além de cantinas familiares, e responde por cerca de 80% do vinho produzido no Espírito Santo, segundo o portal Descubra o Espírito Santo, da Secretaria de Turismo do estado. A produção nasceu com as videiras trazidas pelos imigrantes e hoje divide as propriedades com queijos, geleias, doces caseiros e cachaça artesanal, boa parte vendida na porta de quem produz, ao longo do Caravaggio. O jeito mais direto de provar é visitar a vinícola: as paradas do circuito ficam a poucos quilômetros umas das outras, o que permite emendar 2 ou 3 degustações na mesma tarde sem pressa. A primeira cantina aparece ainda na margem da ES-261, no trecho urbano que marca o início do circuito, antes mesmo de a estrada virar zona rural.

O café conta outra camada da mesma história agrícola. Enquanto o café conilon domina as terras quentes e faz do estado o maior produtor nacional da variedade, a altitude teresense é território do arábica de montanha, servido nos cafés do centro e vendido em grão nas propriedades. Na mesa dos restaurantes, a herança aparece sem tradução: polenta, massas frescas e vinho colonial seguem como o cardápio padrão dos fins de semana.

Qual a melhor época para visitar?

Qualquer mês serve para conhecer a cidade; o que muda a viagem é fazer a data coincidir com uma festa. O calendário oficial de turismo lista a Festa do Imigrante Italiano, a Festa do Vinho e da Uva, o Santa Teresa Gourmet e o Festival Santa Jazz e Bossa entre os eventos do município, com programação anunciada a cada edição. Antes de fechar hospedagem por causa de um deles, confirme as datas do ano nos canais oficiais: a programação varia de edição para edição, e este post não fixa mês de propósito.

Fora das festas, o critério é o clima de montanha. No inverno, as temperaturas baixas combinam com a mesa de massas e vinho, e a neblina que desce sobre o vale faz parte da paisagem, não é defeito. Para os beija-flores não há estação certa: os relatos de visita ao parque citam os bebedouros movimentados em qualquer mês do ano. Já os horários pesam mais que o calendário: a Casa Lambert abre de sexta a domingo, e as visitas guiadas do parque acontecem de terça a sexta, então a sexta-feira é o único dia que reúne os dois com agenda cheia, e o fim de semana prolongado resolve para quem não pode emendar. Quem monta roteiro maior de serra costuma dividir os dias entre Santa Teresa e Pedra Azul, que fica no lado oposto da região serrana e soma trilhas e mirantes ao trecho de cantinas.

Onde o Brasil começou a falar italiano

Uma lei federal fixou o pioneirismo, mas quem sustenta o título no dia a dia é a rotina da cidade: o sobrenome no portão, a polenta no almoço, o beija-flor no bebedouro do parque que um naturalista fundou em 1949. Para a primeira ida, o roteiro mínimo cabe num fim de semana: parque do museu pela manhã, Rua do Lazer no almoço e Caravaggio à tarde. Se você já subiu a ES-261, fica a pergunta de quem planeja a próxima: o que te segurou mais tempo, o bebedouro dos beija-flores ou a mesa de alguma cantina do Caravaggio?

Foto de capa: bandeiras da Itália na ladeira do centro de Santa Teresa – ES, por Pivotante, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada e redimensionada.

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