A página de Folclore do Governo do Espírito Santo lista nove manifestações, em ordem alfabética: alardo, boi pintadinho, capoeira, danças folclóricas, folia de reis, jongo, pastorinhas, reis de boi e ticumbi. Cada uma ganha um parágrafo com vestimenta, instrumento e enredo. O congo não é uma delas.
A palavra congo aparece duas vezes na página inteira, e as duas estão dentro da descrição do ticumbi, para nomear o personagem Reis de Congo. Casaca, o instrumento de madeira raspada que a banda de congo usa e que quase não se faz fora daqui, aparece zero vez. Enquanto isso, congo capixaba é buscado cerca de 880 vezes por mês no Google, contra 110 de folclore capixaba, e é a única manifestação popular do estado com reconhecimento formal de patrimônio imaterial. Este texto reúne o que a lista oficial traz, o que ela deixa de fora e onde os dados públicos se contradizem, com as consultas feitas em 26 de agosto de 2026.
Sumário
A lista oficial do Governo do ES tem nove manifestações
A página de Folclore do portal do Governo do Estado funciona como um verbete curto por manifestação. O alardo, também chamado bate-flechas, louva São Sebastião e São João Batista, e cada dançador carrega duas flechas que marcam o ritmo junto com a batida dos pés. O boi pintadinho reúne em média quinze a vinte figuras, podendo passar de quarenta, e tem três personagens obrigatórios: o boi, a mulinha e o puxador. A capoeira entra pelo conjunto instrumental de berimbau, pandeiro, ganzá, agogô, adufe e atabaque.
O texto é bom e está desatualizado em um ponto específico. Ele descreve manifestações, não o estado atual delas: não há data de festa, não há município com grupo ativo, não há indicação de quantos grupos restaram. Quem chega pela busca encontra a descrição de um folguedo e sai sem saber se ele ainda acontece, onde e quando. A ausência do congo é o caso extremo dessa lacuna, porque não se trata de um dado que envelheceu, e sim de uma manifestação inteira que nunca entrou na lista.
O congo é o mais procurado do estado e o único com registro
O congo capixaba foi reconhecido como patrimônio imaterial do Espírito Santo em 2014, por decisão do Conselho Estadual de Cultura. O reconhecimento estadual puxou o passo seguinte: ainda em 2014 a Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no estado começou um levantamento das bandas, que virou a pesquisa de identificação do Congo do Espírito Santo, coordenada pelos pesquisadores Elisa Ramalho Ortigão e José Otávio Lobo Name.
Dez anos depois, em 2024, as associações de Cariacica, Fundão, Guarapari, Serra e Vila Velha e a Federação das Bandas de Congo entregaram ao Iphan o pedido de registro do Congo como Patrimônio Cultural do Brasil. Até a data desta publicação o registro nacional não saiu, e o que existe é o processo em instrução. A comparação útil aqui está a poucos quilômetros: o ofício das paneleiras de Goiabeiras foi registrado pelo Iphan em 2002 e é o caso capixaba que mostra o que muda depois do selo, assunto que o texto sobre como nasce a panela de barro de Goiabeiras detalha.
Há um detalhe que fecha o argumento e é fácil de conferir. A página da Secretaria de Estado da Cultura que anunciava o congo como bem imaterial do Espírito Santo continua sendo a segunda resposta do Google para quem busca o assunto, mas ela não abre mais: o endereço redireciona para a página inicial da secretaria. O texto oficial que registrava a decisão de 2014 sumiu do ar, e o link que a busca oferece leva a lugar nenhum.
O Atlas ouviu mestres em 56 dos 78 municípios capixabas
O levantamento mais amplo já feito sobre o assunto é o Atlas do Folclore Capixaba, iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura com o Sebrae-ES. Segundo a própria página do governo, a pesquisa fez mais de 300 entrevistas com mestres da cultura popular em 56 municípios e registrou a ocorrência de aproximadamente 280 grupos folclóricos, entre saberes, danças, folguedos, artesanato e festas.
Vale colocar os números lado a lado. O Espírito Santo tem 78 municípios, então o Atlas cobriu 71,8% deles, e a média sai em cinco grupos por município visitado. É desse mesmo levantamento que vem o número mais citado sobre o congo, e a conta seguinte é a que interessa: as 61 bandas de congo contadas pelo Atlas equivalem a mais de um quinto de todos os grupos folclóricos que a pesquisa encontrou no estado. A manifestação ausente da lista oficial é, pela medida do próprio estado, a mais numerosa delas.
O Atlas também é a ponte entre folclore e trabalho manual, porque cataloga o artesanato como expressão folclórica. Quem faz a casaca, o tambor e a bandeira da banda é artesão, e a produção capixaba tem hoje um retrato próprio no texto sobre o artesanato capixaba e seus 16 mil artesãos cadastrados.
Quantas bandas de congo existem hoje?
Não existe um número único, e a diferença entre as fontes é grande o bastante para ser dita. O Atlas do Folclore Capixaba, cujos dados de campo são de 2009, aponta 61 bandas de congo, distribuídas por municípios como Alfredo Chaves, Anchieta, Aracruz, Cariacica, Colatina e Fundão. Em 2024, no dia da entrega do pedido ao Iphan, o presidente da Associação das Bandas de Congo de Roda d’Água, em Cariacica, falou em mais de 70 bandas espalhadas pelo estado. São quinze anos entre uma contagem e outra, e nenhum recenseamento público mais recente que confirme qualquer das duas.
A composição, essa é estável. Uma banda de congo costuma ter de dez a quinze integrantes, entre instrumentistas, cantoras, o mestre, a guardiã da bandeira, a porta-estandarte e as crianças. O instrumento que a distingue é a casaca, um bastão de madeira entalhado em gomos, raspado com uma haste, que carrega a marca africana no ritmo. A devoção quase sempre é a São Benedito, e ela aparece no nome da banda, na letra das músicas e no estandarte levado à frente do cortejo.
O ticumbi encena uma guerra entre dois reis negros há mais de 200 anos
O ticumbi é o folguedo do norte do estado e, segundo o governo, existe ali há mais de 200 anos. O enredo é uma disputa: o Reis de Congo e o Reis de Bamba, duas majestades negras, querem cada um fazer a festa de São Benedito por conta própria. Os secretários de cada lado trocam embaixadas com desafios declamados, o acordo não sai, e vem a guerra, que é uma luta bailada. O Reis de Congo vence sempre, por tradição, e submete o rival ao batismo. Só depois disso a festa acontece e o grupo canta e dança o ticumbi.
A roupa é branca e vistosa, com bata rendada, traspasse de fitas coloridas, calça de friso vermelho e capacete enfeitado com flores de papel de seda. Os reis usam coroa de papelão forrada de papel dourado, peitoral com espelhinhos e espada na mão ou na cintura. O ritmo sai de pandeiro e de chocalho de lata, chamado ganzá ou canzá, e a viola entra quando os guerreiros cantam. A cada ano os grupos escolhem um tema novo, que reaparece nos cânticos e nos bailados.
Geograficamente o ticumbi é de Conceição da Barra e São Mateus, no extremo norte do litoral capixaba. É a mesma faixa de costa onde fica a vila descrita no texto sobre as dunas de Itaúnas e a vila soterrada pela areia, o que ajuda a entender por que aquele pedaço do estado concentra tanta manifestação de matriz africana e tão pouca infraestrutura de divulgação.
O que o jongo, o reis de boi e as pastorinhas marcam no calendário?
Quatro das nove manifestações da lista oficial têm data marcada, e é o calendário que separa uma da outra. O jongo, que envolve canto, dança e percussão de tambor, é o mais antigo em raiz africana e aparece tanto no norte, em São Mateus e Conceição da Barra, quanto no sul, em Cachoeiro de Itapemirim, Anchieta e Presidente Kennedy. A formação descrita pelo estado é de doze mulheres de blusa branca, saia e lenço azul na cabeça, com três homens nos tambores e no reco-reco. O jongo é considerado a raiz mais primitiva do samba, o que explica sua concentração no sudeste cafeeiro.
O reis de boi é a expressão mais popular do norte capixaba e roda no ciclo de Natal, prolongando-se até o dia de São Brás, em 3 de fevereiro. O vaqueiro conduz bichos mascarados, lobisomens e cavalos-marinhos, e o boi entra em cena dançando, dando voltas e chifradas. Em alguns grupos o boi morre e ressuscita, e depois é dividido entre a assistência, com um refrão cantado a cada pedaço vendido.
As pastorinhas, ou lapinhas, são da noite de Natal: cantam diante do presépio, saem em marcha depois da missa e param nas casas onde há presépio armado, onde recebem licor e biscoito. A folia de reis, de origem portuguesa, ganhou força no século 19 nas regiões de café e visita as casas com tambor, reco-reco, flauta, rabeca, viola caipira e sanfona, com paradas para refeição em que entram catira, moda de viola e cateretê.
As danças de imigração dividem a lista com as de matriz africana e indígena
O quinto verbete da lista oficial não nomeia um folguedo, e sim um conjunto: danças folclóricas. Ali entram as danças italianas, pomeranas, alemãs, holandesas e polonesas que os imigrantes trouxeram para as montanhas do interior, e as pomeranas subiram ao palco em quatro dos sete dias da 37ª Festa Pomerana de Santa Maria de Jetibá. Elas são executadas em par, em roda ou em fileira, e mudam com o tempo, embora os passos básicos e a música permaneçam próximos do estilo original.
Colocar essas danças no mesmo índice que o jongo e o ticumbi é uma decisão editorial que o próprio estado explica: a cultura popular capixaba é descrita como a soma do encontro entre indígenas, africanos, portugueses e imigrantes italianos, alemães, pomeranos, austríacos, espanhóis, holandeses, suíços, poloneses e libaneses. A parte da serra dessa história aparece no roteiro sobre Venda Nova do Imigrante e o agroturismo da imigração italiana, onde a dança e a comida chegaram no mesmo navio.
Onde ver folclore capixaba sem depender do site oficial?
Como a lista oficial não traz agenda, o caminho prático é outro. O Mapa Cultural ES, mantido pela Secretaria de Estado da Cultura, é um cadastro público de agentes, espaços e projetos culturais, e é nele que grupos de congo, ticumbi, folia de reis e jongo aparecem com nome, município e projeto em andamento. É a fonte que responde a pergunta que a página de folclore não responde, que é quem ainda está ativo.
As datas grandes seguem o calendário religioso, e duas puxam público de todo o estado. A Festa de São Benedito na Serra ocupa 25, 26 e 27 de dezembro, e é a maior concentração de bandas de congo do ano. A Festa da Penha, em Vila Velha, na semana seguinte à Páscoa, é a outra ocasião em que várias bandas se encontram no mesmo lugar. A santa da festa veste azul e rosa, as mesmas cores da bandeira capixaba. No norte, o ticumbi acompanha as festas de São Benedito em Conceição da Barra, e o reis de boi vai do Natal a 3 de fevereiro.
Quem estiver montando um roteiro pelo estado consegue encaixar pelo menos uma dessas datas: o texto sobre o que fazer no Espírito Santo organiza os destinos por distância e por dia, e o calendário do congo cai bem em dezembro, quando a serra e o litoral já estão cheios. Antes de sair de casa, confirme a data no Mapa Cultural ou na página da prefeitura do município, porque grupo de cultura popular depende de edital e de mestre disponível, e a agenda muda de um ano para o outro. Fora do calendário religioso, três festivais de caranguejo do litoral aconteceram no mesmo feriado de setembro de 2026, antes do defeso de outubro, e as datas estão no post sobre a festa do caranguejo. No mesmo extremo norte, o Festival de Forró de Itaúnas ocupa a vila por oito dias em julho, também fora do calendário religioso, e a edição de 2026 foi de 18 a 25 de julho.
Foto de abertura: Banda de congo Mestre Honório em apresentação no Espírito Santo, por Gutoaz, via Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0.






