O que querem dizer as gírias capixabas pocar, taruíra e gastura

O sentido de 13 gírias, o que os dicionários dizem de pocar e taruíra e a resposta da Ufes sobre o sotaque.

As gírias capixabas que mais aparecem nas listas da imprensa do Espírito Santo são pocar, que quer dizer estourar ou fazer sucesso, taruíra, o nome local da lagartixa, chapoca, para coisa muito grande, e gastura, para incômodo. As quatro estão nas três listas que o jornal A Gazeta publicou em agosto de 2018, outubro de 2019 e janeiro de 2026, ao lado de saltar do ônibus, ir pro rock e palha.

Nem toda palavra dessas listas nasceu no estado. Em consulta feita pelo Casa Capixaba em 22 de outubro de 2026, pocar, gastura e palha aparecem nos dicionários Michaelis e Aulete como uso do Brasil ou do Nordeste, sem nenhuma marca de Espírito Santo. Já taruíra e chapoca não estão no Michaelis, no Aulete nem no Priberam.

O que faz uma gíria ser capixaba, portanto, é o uso diário no estado, medido pelas reportagens locais, e não um registro oficial. A pesquisa acadêmica sobre o tema existe, mas trata mais do sotaque do que do vocabulário.

O que significam as gírias capixabas mais citadas

A tabela reúne os termos que aparecem em pelo menos uma das três listas de A Gazeta, com o sentido que o próprio jornal dá. Termo que circula só em vídeo de rede social ou em lista sem autor, como tóxo e discunjuro, ficou de fora, porque nenhuma fonte com data e autoria o define.

GíriaO que quer dizerListas de A Gazeta
PocarEstourar; fazer sucesso2018, 2019 e 2026
TaruíraLagartixa2018, 2019 e 2026
ChapocaCoisa muito grande2018, 2019 e 2026
GasturaIncômodo, irritação, agonia2018, 2019 e 2026
PalhaRuim, sem graça, chato2018, 2019 e 2026
Ir pro rockSair para uma festa, de qualquer ritmo2018, 2019 e 2026
Saltar do ônibusDescer do ônibus2018, 2019 e 2026
IáInterjeição de surpresa2018 e 2019
MassaMuito legal2019 e 2026
Pão de salPão francês2019 e 2026
PanharPegar, colher2018
Sem doceSem açúcar2019
Só a brocaCom muita fome2026
Sentidos publicados por A Gazeta em 18/08/2018, 25/10/2019 e 11/01/2026.

Sete termos atravessam as três listas, e essa repetição é o sinal mais firme de uso que a imprensa oferece. O jornal compara o iá ao “uai” mineiro e ao “oxe” baiano, e explica que, no estado, não se sobe nem se desce do ônibus: pega e salta. A lista de 2026 avisa que massa não é exclusiva do Espírito Santo, e que só a broca é mais usada pelos jovens. Duas são de mesa, o pão de sal da padaria e o pedido sem doce, assunto que cruza com a comida típica do Espírito Santo.

Pocar: o que significa e de onde vem a palavra

Pocar é a gíria que abre as listas de 2018 e de 2026, com dois sentidos: estourar, como em “o balão pocou”, e fazer sucesso, como em “o show pocou”. A matéria de 2026 acrescenta o poca fora, de quem vai embora. Pela consulta de 22 de outubro de 2026, os dicionários só conhecem o primeiro sentido. O Michaelis define o verbo como bater fortemente ou estourar como pipoca, e marca como regional do Nordeste o sentido de fazer-se em pedaços. O Aulete classifica como uso popular do Brasil e iguala a espocar e pipocar.

Nenhum dos quatro dicionários consultados, Michaelis, Aulete, Dicio e Priberam, registra o sentido de fazer sucesso, que é justamente o uso que o capixaba reconhece como seu. Sobre a origem, os dicionários divergem na língua indígena: o Michaelis e o Dicio derivam o verbo do tupi póka, arrebentar, e o Aulete aponta o guarani poc, rebentar. A explicação que liga a palavra ao estouro de canhões no período colonial aparece na resposta de inteligência artificial da própria busca, sem documento citado.

Quais gírias são só capixabas e quais se falam em outros estados

As duas palavras que mais parecem exclusivas do estado são as que os dicionários não registram. Em 22 de outubro de 2026, a busca por taruíra e por chapoca no Michaelis, no Aulete e no Priberam voltou sem verbete. A ausência no dicionário não diz que a palavra é rara: diz que o uso ainda não foi documentado por quem faz o registro da língua.

Com gastura acontece o contrário. A palavra está no Michaelis, que marca como regional do Nordeste os sentidos de aflição, irritação nervosa e mal-estar provocado por ruído ou atrito, e no Aulete, que abona o sentido de forte irritação com uma frase de Guimarães Rosa. Palha, no sentido de coisa sem graça, está no Aulete como uso popular do Brasil. O capixaba usa as duas todos os dias, mas divide as duas com outros estados.

Qual o sotaque do Espírito Santo?

A pesquisa acadêmica sobre a pergunta não dá uma resposta única. Marcela Langa Lacerda e Ana Clara Leppaus, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), trataram do tema no artigo “Capixaba tem sotaque? Quem pode dar essa resposta?”, publicado na revista Confluência em 23 de julho de 2023. A partir de revisão bibliográfica e de pesquisa de opinião pública, as autoras concluem que capixaba tem e não tem sotaque, paradoxalmente, porque a identidade da fala muda conforme quem responde.

Na reportagem de A Gazeta de 18 de agosto de 2018, o linguista José Augusto Carvalho, doutor em Língua Portuguesa, apontava o “trêis”, com som de i, como uma das marcas da fala local, e dizia que ainda não havia estudo ou mapa linguístico que atestasse um dialeto capixaba. Seis anos antes, a fala de Vitória (ES) já era objeto do Projeto PortVix, da Ufes, descrito em 2012 na revista Alfa, e entre 2014 e 2022 pesquisadores da mesma universidade publicaram estudos sobre a entonação do dialeto capixaba no projeto internacional AMPER. Nenhum dos dois, porém, é um mapa do vocabulário. O nome do próprio povo tem outra história, contada no texto sobre de onde vem a palavra capixaba.

As gírias capixabas que perderam força e uma que os mais novos usam

Em 4 de novembro de 2017, o programa Em Movimento, da TV Gazeta, foi às ruas perguntar onde tinham ido parar pocar, ir para o rock, saltar do ônibus, chapoca e iá, e ouviu de um historiador que o sumiço tinha a ver com a comunicação pela internet. Oito anos depois, a lista de janeiro de 2026 ainda traz quatro delas, só sem o iá.

A renovação aparece nas próprias listas. Só a broca não estava em 2018 nem em 2019 e entrou em 2026 como gíria dos mais novos, enquanto panhar e bicho, de 2018, ficaram fora da lista nova. Parte do vocabulário de 2019 é doméstico, como champinha, a tampinha, e cacunda, os ombros. A própria reportagem de 2017 abria lembrando que a panela de barro continuava firme como um dos maiores símbolos capixabas, enquanto as gírias perdiam espaço nas ruas.

Qual gíria capixaba da sua casa ficou de fora da tabela? A resposta pode entrar numa atualização deste texto, desde que ela apareça também em alguma fonte publicada.

Fontes: A Gazeta, reportagens de 18/08/2018, 25/10/2019 e 11/01/2026; TV Gazeta, Em Movimento, 04/11/2017; dicionários Michaelis, Aulete, Dicio e Priberam, consultados em 22/10/2026; Langa Lacerda e Leppaus, Revista Confluência n. 65, 2023; Yacovenco e outros, Projeto PortVix, revista Alfa, v. 56, 2012; Meireles e outros, projeto AMPER (Ufes), estudos de prosódia do dialeto capixaba de 2014 a 2022, varialing.eu. Imagem de capa: lagartixa-de-parede (Hemidactylus mabouia) em Picard, Dominica, foto de Postdlf, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0, recortada e com cor ajustada.

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