Quem pergunta o que fazer em Guarapari costuma receber uma lista de praias em resposta, ordenada do centro para o sul. A prefeitura da cidade responde outra coisa. Na página em que a secretaria de turismo reúne os pontos turísticos do município há 11 endereços, e apenas um deles é praia. Os outros dez são uma igreja de 1585, as ruínas de uma matriz que nunca ficou pronta, um poço jesuíta assentado com óleo de baleia, uma gruta de 1942, um casarão colonial, um hotel de 1953 fechado desde 1992, um cemitério que rendeu personagem de novela, um santuário em Meaípe, uma escultura de 8 metros e uma pedra que lembra a cabeça de um elefante.
Este guia percorre esse outro roteiro, com horário, taxa de entrada e o que a experiência de quem já foi mostra sobre cada parada.
Sumário
Por que a lista oficial de atrativos quase não tem praia
A página em que a Secretaria de Turismo, Esporte e Cultura de Guarapari - ES reúne os pontos turísticos do município trazia 11 itens em 11 de agosto de 2026, e a Praia da Areia Preta era o único com faixa de areia, conforme a relação publicada pela prefeitura.
O desequilíbrio tem explicação histórica. Guarapari foi aldeamento jesuíta em 1585, virou vila em 1679 e só depois virou destino de veraneio, e o patrimônio desses três séculos ficou concentrado no centro velho, num raio de poucas quadras. A praia sustenta a economia da cidade no verão, e o resto do ano quem sustenta a visita são construções de 300 e 400 anos mais duas unidades de conservação.
Isso muda o planejamento de quem viaja fora da temporada. Em maio ou agosto, com a água fria e a orla vazia, o roteiro não esvazia junto: ele só troca de assunto. O guia geral da cidade cobre a parte de hospedagem, comida e melhor época; aqui a conversa é sobre o que ocupa as horas do dia.
O centro histórico cabe numa manhã a pé
Cinco dos dez atrativos não praianos ficam no centro, a distância de caminhada um do outro. A rota natural começa na parte alta e desce para a orla.
- Igreja Nossa Senhora da Conceição: construída em 1585 pelo padre José de Anchieta, na Ladeira Dom João Cavati, é a peça mais antiga do conjunto. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), guarda relíquias sacras do século XVII e conchas embutidas na fachada. A visita depende do horário: o interior abre nos horários de missa, então conferir a escala da paróquia antes de subir a ladeira evita a viagem perdida.
- Ruínas da Antiga Matriz: erguida em 1677 por Francisco Gil de Araújo, donatário da capitania, nunca foi concluída por causa de um incêndio. Restaram as paredes e o campanário, refeito em 1817. Ao longo do tempo o lugar serviu de cemitério, horta escolar e cadeia. Tombadas pelo Conselho Estadual de Cultura em 1989.
- Poço dos Jesuítas: nas pedras à beira-mar do Morro do Atalaia, é o único remanescente dos vários poços abertos pelos jesuítas no século XVI. Foi fechado em cúpula, com pedras sobrepostas e argamassa de areia, conchas trituradas e óleo de baleia, a mesma receita das ruínas da matriz.
- Gruta de Sant’Ana: a Grutinha, de pedras sobrepostas, foi levantada em 1942 por um morador e restaurada em 1991. Tem escadaria de acesso e abriga imagens de Sant’Ana e de Nossa Senhora de Lourdes.
- Casa da Cultura: o casarão da Praça Trajano Lino Gonçalves teria sido construído por volta de 1749 para abrigar câmara, cadeia e prefeitura no mesmo prédio. A intervenção de 1988 preservou só as paredes laterais e a fachada.
Fora do centro, em Meaípe, a Igreja de Sant’Ana ocupa o alto de uma pedreira com o mar aos pés, posição que servia de farol para pescadores. Alguns relatos datam a construção de 1619. O santuário novo, ao lado da capela, é de 1988 e 1989. Meaípe é também onde fica a maior concentração de restaurantes de moqueca capixaba da cidade, o que faz da parada um programa de fim de manhã.
O cemitério que rendeu um personagem de novela
O Cemitério São João Batista, perto da Praia das Virtudes, tem a história mais improvável da lista oficial. A obra começou em 1906, por iniciativa do prefeito João Batista de Almeida, e travou por um motivo que nenhum cronograma prevê: durante dez anos ninguém morreu na vila. A inauguração só saiu em 1916, quando um corpo foi trazido da vizinha Benevente, hoje Anchieta.
A demora rendeu suspeita de desvio das verbas da obra e um discurso de vereador na cerimônia de inauguração. O episódio chegou a Dias Gomes e virou matéria-prima de Odorico Paraguaçu, o prefeito de Sucupira de “O Bem Amado”, que contrata um pistoleiro para conseguir um defunto e enfim inaugurar o cemitério.
A prefeitura credita a longa ausência de óbitos à ventilação e à altitude da vila, e registra que Guarapari já era chamada de cidade saúde antes de qualquer conversa sobre areia monazítica. A fama, portanto, nasceu de estatística vital, não de mineral.
A trilha do Morro da Pescaria termina em três praias
O Parque Natural Municipal Morro da Pescaria fica no fim da Praia do Morro e protege 73 hectares de Mata Atlântica. A trilha principal tem 1 km e o percurso de ida e volta leva cerca de 1 hora, segundo a página do parque na prefeitura, consultada em 11 de agosto de 2026.
O caminho dá acesso a três praias. A Areia Vermelha tem areia monazítica, como a Areia Preta. A Ponta Sul fica no meio do trajeto e se alcança por uma variante batizada de Trilha do Descidão, nome que descreve bem a declividade. A do Ermitão, no fim, é a mais movimentada, e leva o nome do caranguejo-ermitão que vive nas pedras. Três mirantes pontuam o percurso, e sagui-da-cara-branca, gambá, ouriço-cacheiro e preá aparecem no caminho.
As regras práticas são estas, e valem a conferência antes de sair de casa:
- Horário: entrada na trilha das 7h às 16h, todos os dias da semana, com retorno à portaria até as 17h.
- Taxa: R$ 5 por pessoa, valor fixado pelo Decreto municipal 189/2023 e conferido em 11 de agosto de 2026. Crianças até 10 anos e pessoas a partir de 60 entram sem pagar, mediante documento com foto.
- Proibições: piquenique, fogo de qualquer tipo, retirada de mudas, descarte de lixo fora das lixeiras e alimentação dos animais.
- Estrutura: bebedouro e banheiros ficam na unidade administrativa, na entrada. No percurso não há.
Sobre a experiência de percurso, os relatos públicos convergem em três pontos. A dificuldade divide opiniões pelo motivo certo: quem foi com crianças descreve o trajeto como tranquilo para elas, e o mesmo conjunto de relatos é unânime em dizer que a trilha não serve para quem usa cadeira de rodas, por causa dos trechos de subida e do piso irregular. A conservação é a queixa mais repetida, e ela aparece grudada na cobrança: lixo no caminho, bancos e cercas sem manutenção, com a observação de que os R$ 5 não se traduzem no estado da trilha. Quem quer alternativa ao piso pavimentado costuma contornar pelas pedras, saindo da Areia Vermelha até o Ermitão, num percurso mais exigente.
A cena mais citada por quem sobe é o encontro com os saguis, que descem das árvores perto dos mirantes. Alimentar os bichos está entre as proibições do parque, e a recomendação prática é ir cedo, quando eles estão ativos e o sol ainda não bate direto no trecho descoberto.
O que esperar do banho de areia preta
A Praia da Areia Preta é o único item de praia da lista oficial, e está lá pela história, não pelo mar. Foi a partir dela que Guarapari ganhou a alcunha de cidade saúde, num movimento que a prefeitura credita ao médico e escritor Antônio da Silva Mello, nos anos 1930 e 1940. A areia é descrita como rica em ilmenita, monazita, terras raras, granada e zirconita.
Aqui cabe uma ressalva de leitura. A prefeitura atribui propriedades medicinais a essa areia, e essa atribuição não é consenso científico: o efeito terapêutico da exposição a baixas doses de radiação é objeto de disputa entre pesquisadores, e nada no assunto substitui orientação médica. O que é verificável é o costume: o banho de areia virou prática local nos anos 1960, chegou a atrair celebridades e continua movendo visitantes até hoje. Vá pela tradição, não pela receita.
Na prática, a praia funciona bem para o programa de sentar e ficar. Há quiosques com cardápio variado e preço descrito como justo por quem come lá, e aluguel de cadeira e sombrinha na faixa. A água é fria, e essa é a observação que mais se repete entre quem chega esperando mar morno.
O contraste com o entorno é o que surpreende quem vai pela primeira vez. Bem em frente à praia está o Radium Hotel, inaugurado em 1953 com 140 quartos e salões de jogo, fechado em 1992 por deterioração e tombado pelo Iphan em 1998. A prefeitura anuncia o restauro completo do prédio e sua transformação em centro de inovação para o turismo, com cursos do Senac. Quem visita hoje encontra o prédio fechado, e a impressão de abandono do calçadão e do estacionamento é a crítica mais frequente à orla nos relatos públicos. O plano oficial é o fato; o estado atual é o aviso de uso.
As baleias passam entre junho e novembro
A observação de baleias-jubarte acontece a 25 quilômetros da costa, cerca de 40 minutos mar adentro, e só pode ser feita por empresas capacitadas e autorizadas, segundo o governo do Espírito Santo.
A janela da temporada varia conforme quem informa. O material do governo estadual fala em maio a novembro, a prefeitura de Vitória trabalha com junho a novembro e as operadoras que vendem a saída anunciam julho a novembro, com pico entre agosto e outubro. Agosto está dentro de todas as versões, o que faz do mês a aposta mais segura de quem viaja com esse objetivo. A saída depende de mar, então reserva com data única e sem folga costuma dar errado.
Onde as praias entram no roteiro
A praia não sai do roteiro, ela só divide o dia com o resto. Guarapari tem faixas de areia de perfis diferentes o bastante para escolher pela companhia e pelo tipo de dia, e cada uma delas já tem guia próprio por aqui.
- Mar calmo e família: a Enseada Azul, em Nova Guarapari, reúne cinco praias sem ondas, três delas com acesso de rua.
- Natureza e parque: Setiba fica na área do Parque Estadual Paulo César Vinha, a segunda unidade de conservação da cidade.
- Enseadas e trilha: as Três Praias, no Perocão, se alcançam por uma trilha plana de 1.400 metros.
- Panorama completo: a lista das 12 praias da cidade organiza o litoral por trecho, de Setiba a Meaípe.
Dois dias dão conta do que fazer em Guarapari?
Dão, desde que os períodos sejam divididos por tipo de programa. A distribuição que funciona separa o que depende de horário fixo do que depende só de disposição.
O primeiro dia começa cedo no Morro da Pescaria, com a trilha feita antes das 10h, e reserva a tarde para a Areia Preta e o centro histórico, terminando na ladeira da igreja de 1585. O segundo dia vai para a praia escolhida pelo perfil do grupo, com almoço de moqueca em Meaípe e a Igreja de Sant’Ana na volta. A saída para ver baleias, quando a viagem cai entre junho e novembro, ocupa uma manhã inteira e precisa de um dia reserva, porque o mar cancela.
Antes de fechar o roteiro, dois telefonemas resolvem a maior parte dos imprevistos: a paróquia, para saber o horário de missa que abre a igreja, e a portaria do parque, para confirmar a taxa e o horário da trilha. Se você já subiu o Morro da Pescaria, qual dos três mirantes vale a parada mais longa?
Imagem destacada: Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Guarapari. Foto de Túllio F, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0, recortada.






