O Trem das Montanhas Capixabas não circula desde 2013. O passeio ligava a estação de Viana (ES) à região serrana aos fins de semana, parou naquele ano e virou, desde então, uma promessa que reaparece a cada dois ou três anos na imprensa capixaba. A mais recente delas tinha data: o primeiro semestre de 2026, prazo anunciado em julho de 2025 pelas prefeituras envolvidas. O primeiro semestre passou. O trem não voltou.
Este texto reúne o que existe de concreto hoje, em agosto de 2026, e o que é expectativa. Boa parte do que se lê sobre o trem repete números soltos, e um deles não bate com a via que está no chão. A medição da linha férrea entre Viana e Marechal Floriano, feita para este post na base aberta do OpenStreetMap, deu 30,69 quilômetros, contra os cerca de 50 que a imprensa repete desde 2025.
Sumário
O Trem das Montanhas Capixabas está funcionando hoje?
Não. Nenhuma composição turística circula no trecho, e não há venda de passagem em nenhum canal oficial. Quem procura o passeio encontra páginas de 2012 com horário e preço, reportagens de 2025 com verbo no futuro e um punhado de vídeos anunciando a volta. Nada disso descreve um serviço em operação.
A confusão tem uma causa simples. O nome do passeio continua indexado, as fichas antigas continuam no ar e o assunto voltou ao noticiário em 2025 e 2026 por causa das negociações. Um leitor apressado soma essas três coisas e conclui que o trem está de volta. Quem for até a estação de Viana em agosto de 2026 encontra trilho, plataforma e nenhum trem turístico.
O que o trem era entre 2009 e 2013
O serviço saía da estação ferroviária de Viana e subia a serra em direção a Marechal Floriano, com paradas intermediárias. As descrições publicadas à época divergem no detalhe: um registro de setembro de 2012 no blog Rotas Capixabas fala em saída às 10h30 aos sábados e domingos, e uma página do site VFCO, especializado em ferrovias brasileiras, registra partida de Viana às 9h. As duas concordam no essencial, que era um passeio de fim de semana, ida e volta no mesmo dia.
O preço deixou rastro documental. Em outubro de 2010, a Secretaria de Estado do Turismo divulgou desconto para servidores e publicou a tabela cheia: R$ 122,00 para adulto ida e volta e R$ 86,00 para apenas um trecho. A operação era da Serra Verde Express, a mesma empresa que toca o trem de Curitiba a Morretes, no Paraná.
O trecho atravessa a transição entre a baixada e a região das montanhas capixabas, o mesmo desnível que a BR-262 vence de carro. É esse contraste, de manguezal a mata de altitude em pouco mais de meia hora, que fazia do passeio uma atração e que segue sendo o argumento de quem defende a retomada.
São 30,7 km de via entre Viana e Marechal Floriano, não os 50 que circulam
O número que aparece em quase toda reportagem desde julho de 2025 é “cerca de 50 quilômetros”. O número que circulava em 2012, no blog Rotas Capixabas, era 25 quilômetros. Nenhum dos dois é apresentado com fonte.
Para resolver a divergência, este post mediu a própria via. Os traçados ferroviários da região foram extraídos da base aberta do OpenStreetMap em 28 de agosto de 2026 e o percurso foi calculado seguindo os trilhos, e não em linha reta. Da estação de Viana até a sede de Marechal Floriano, a via férrea tem 30,69 quilômetros. Em linha reta, os dois pontos estão a 19,93 quilômetros um do outro, o que dá a medida do quanto a ferrovia serpenteia para vencer a serra.
Os 50 quilômetros provavelmente descrevem o percurso de ida e volta, ou incluem o prolongamento até Matilde, distrito de Alfredo Chaves que entra nas versões mais recentes do projeto. Como as reportagens não explicitam o que estão medindo, o número viaja sem contexto. Quem for calcular tempo de viagem ou custo por quilômetro precisa saber qual dos dois está usando.
A via inteira aparece como desativada no mapa aberto
A mesma extração do OpenStreetMap trouxe um dado que as reportagens não mencionam. Dos 30 trechos de linha corrida mapeados na região, todos os 30 estão etiquetados como railway=disused, a marcação usada para via férrea sem tráfego. Somando o recorte inteiro entre Viana e a divisa serrana, são 64,57 quilômetros de linha classificada como desativada, e nenhum metro de linha corrida marcado como via em uso.
Vale a ressalva: isso é o que o mapa colaborativo registra, não um laudo de engenharia. A etiqueta reflete o que os mapeadores observaram em campo, e via sem tráfego não é a mesma coisa que via intransitável. Ainda assim, é o retrato mais atualizado disponível publicamente, e ele é coerente com doze anos sem operação.
Há um segundo achado na mesma consulta, e ele é uma ausência. O OpenStreetMap registra uma única estação ferroviária em todo o trecho, a de Viana. As demais paradas que aparecem nas descrições do passeio, incluindo Vale da Estação e o ponto em Marechal Floriano, não existem como estação no mapa aberto. Numa base que costuma registrar até ponto de ônibus rural, a ausência sugere que essas estruturas deixaram de ser identificadas como estação em algum momento dos últimos doze anos.
A cessão da antiga Ferrovia Leopoldina mudou o dono do problema
O obstáculo do projeto nunca foi turístico, e sim de titularidade da via. A linha é da malha concedida à VLI Multimodal, e um trem turístico só circula ali com autorização da concessionária e aval do regulador. Foi isso que travou as tentativas anteriores.
A movimentação recente seguiu esse caminho. Em julho de 2025, os prefeitos de Viana e Marechal Floriano se articularam pela retomada, com a Prefeitura de Viana à frente, e anunciaram a expectativa de operar no primeiro semestre de 2026. Em setembro de 2025, uma reunião em Brasília com a Agência Nacional de Transportes Terrestres e o Ministério dos Transportes produziu a recomendação de que o Estado pedisse formalmente a delegação do trecho, segundo apurou a Folha Vitória.
O passo concreto veio em 30 de junho de 2026, com a assinatura de um Acordo de Cooperação Técnica para a cessão de trechos da antiga Ferrovia Leopoldina ao governo do Espírito Santo. É um avanço real, porque transfere ao Estado a capacidade de decidir sobre a via. Também é, até aqui, um acordo sem cronograma de operação anunciado. Duas semanas antes, em 16 de junho de 2026, um editorial de A Gazeta já tratava de um novo destino para o passeio, sinal de que o traçado em discussão mudou em relação ao de 2009.
O trajeto que aparece nas versões atuais liga Viana a Marechal Floriano com paradas em Domingos Martins e Alfredo Chaves, o que costura o passeio à rota do agroturismo capixaba. É uma escolha que faz sentido comercial e que amarra o trem a um circuito que já recebe visitante o ano todo.
A ficha mais visível do passeio descreve outro trem
Quem pesquisa o nome encontra, entre os primeiros resultados, uma ficha de atrativo no TripAdvisor com avaliações de viajantes. O texto em destaque descreve um trem de passageiros com 24 estações, percurso de treze horas, acompanhando o rio Piracicaba e depois o rio Doce.
Nada disso é o Trem das Montanhas Capixabas. A descrição corresponde ao trem de passageiros da Estrada de Ferro Vitória a Minas, que liga a Grande Vitória a Belo Horizonte e opera até hoje. Alguém avaliou um trem e a avaliação foi parar na ficha do outro. O resultado é que a página mais consultada sobre o passeio serrano informa duração, extensão e paisagem de uma viagem completamente diferente.
Se a intenção é andar de trem no Espírito Santo hoje, esse é o serviço que existe de fato. Ele não sobe a serra capixaba nem passa por Pedra Azul, mas circula com regularidade e vende passagem, o que o passeio turístico não faz há doze anos.
Vale programar a viagem contando com o trem?
Não, e a razão é a natureza do que falta. O que trava a retomada não é obra nem compra de material rodante, é acordo entre concessionária, regulador, Estado e municípios. Esse tipo de pendência não tem data confiável até o contrato de operação existir, e o prazo de 2026 já venceu uma vez.
A recomendação prática é montar o roteiro pela estrada e tratar o trem como bônus, caso ele volte. A BR-262 cobre o mesmo desnível e dá acesso a Pedra Azul e ao restante da serra, e há o que fazer em Domingos Martins para dois ou três dias sem depender de trilho. Para quem está montando um roteiro maior, vale ver o que fazer no Espírito Santo antes de fechar as diárias.
Quem quiser acompanhar o assunto tem dois marcos objetivos a observar, e nenhum deles é anúncio de intenção. O primeiro é a publicação do instrumento que formaliza a delegação do trecho ao Estado. O segundo é o contrato com uma operadora, com data de início de operação. Enquanto esses dois documentos não aparecerem, qualquer previsão de retorno é expectativa, e o trilho de Matilde continua vazio.
Imagem de capa: Fachada da Estação ferroviária de Matilde, em Alfredo Chaves, por Profclara, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.






