As dunas de Itaúnas engoliram uma vila e viraram parque estadual

Visita gratuita, trilhas sinalizadas e uma travessia de areia até a praia: veja como funciona o parque mais visitado do Espírito Santo.

Quem sobe a duna mais alta de Itaúnas caminha por cima do que já foi o centro de um povoado. As casas e a igreja da vila original ficaram sob a areia quando as dunas de Itaúnas avançaram sobre as construções, e os moradores refizeram a vida na outra margem do rio. Restou um cenário raro no litoral brasileiro: colinas de areia de até 30 metros, um parque estadual criado para protegê-las e uma praia quase deserta do outro lado.

Este guia reúne a história do soterramento e as regras de visita nas fontes oficiais, e soma o que 20 avaliações de visitantes, de 2021 a 2026, ensinam sobre horário, calçado e travessia.

Por que existe uma vila soterrada sob as dunas de Itaúnas?

A primeira vila de Itaúnas foi engolida pela areia num processo que durou 30 anos, de 1940 a 1970, segundo o material de sinalização das trilhas publicado pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema), gestor do parque. A explicação corrente liga o avanço das dunas à degradação da vegetação de restinga que segurava a areia no lugar: uma nota técnica do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) descreve o episódio como um desequilíbrio desencadeado pela ação humana sobre o ecossistema, e registra que no início dos anos 1980 a vila nova ainda temia um segundo avanço da areia.

A proteção veio em camadas. Em 1986, as dunas foram tombadas como monumento natural pelo Conselho Estadual de Cultura. Em 8 de novembro de 1991, depois da mobilização contra o desmatamento da restinga e contra um projeto de resort ao norte das dunas, nasceu o Parque Estadual de Itaúnas. No ano seguinte, a Unesco incluiu a área no reconhecimento da Mata Atlântica como Patrimônio Natural da Humanidade. São 3.481 hectares em Conceição da Barra (ES), com cerca de 100 mil visitantes por ano, o parque mais visitado do Espírito Santo, segundo a página do Iema, atualizada em abril de 2026.

O nome veio antes de tudo isso, pelo mesmo caminho tupi do gentílico capixaba: ita, pedra, e una, preta. O Iema registra 2 versões para o batismo, as águas escuras do rio ou as rochas de arenito que a maré baixa revela na praia.

Como funciona a visita ao parque e como chegar

A visita é gratuita e não exige agendamento, que só é pedido para grupos de escolas e cursos. O Centro de Visitantes abre todos os dias, de 8h às 17h, e as trilhas são sinalizadas: Tamandaré, Buraco do Bicho e Borboleta cruzam restinga, alagados e o vale do rio. As regras da unidade valem para todo o perímetro: veículo a motor não circula em praia, duna nem trilha sem autorização, caixa de som fica desligada, animal de estimação fica em casa e o lixo volta com o visitante. A área abriga sítios de desova de tartarugas marinhas, um dos motivos da criação do parque. Os dados são da página do Iema, atualizada em abril de 2026; horário e regras merecem conferência na chegada.

Para chegar partindo de Vitória, o caminho é a BR-101 rumo ao norte, com cerca de 270 km e 4h30 a 5h de carro, passando por Linhares e São Mateus, segundo a Secretaria de Turismo do Espírito Santo (Setur). De ônibus, São Mateus é a principal conexão antes de Conceição da Barra. Da sede do município, uma estrada local leva à vila, onde o carro fica: a travessia final até a praia é sempre a pé.

Quando ir e o que levar na travessia

A leitura de 20 avaliações públicas da praia, entre 2021 e 2026, devolve padrões que mudam o planejamento do dia. O mais repetido é térmico: a areia da travessia esquenta a ponto de queimar o pé no meio do dia, e a recomendação recorrente é cruzar as dunas de manhã cedo ou no fim da tarde, sempre com calçado. O segundo padrão é físico: depois da passarela de madeira vem uma subida de areia fofa relatada em cerca de 150 metros, e quem tem mobilidade reduzida ou criança de colo precisa contar com esse esforço, porque carro não chega à faixa de mar.

A estrutura muda conforme o trecho: no acesso principal há barracas de praia servindo comida e bebida, com preço que divide opiniões, e nos trechos mais afastados não há nada, então água, protetor e repelente vão na mochila. O relógio ajuda quem planeja: pela manhã, a maré baixa forma piscinas rasas boas para crianças, e o fim de tarde tem o momento mais citado nas avaliações, o pôr do sol visto do alto das dunas, com a vila de um lado e o mar do outro.

No calendário, 2 datas mudam o tamanho da multidão: o Festival Nacional de Forró, que ocupa a vila por oito dias em julho, e as festas de São Sebastião e São Benedito em janeiro, quando Ticumbi, Alardo, Jongo e Reis de Bois saem às ruas. Nesses períodos e no verão a vila lota; quem busca as dunas de Itaúnas vazias acerta mais fora deles.

A estrada entre a sede do município e a vila tem 25 km, e as fontes divergem em sete

A dúvida mais repetida de quem procura Itaúnas na busca é a distância até a sede de Conceição da Barra (ES), e cada fonte devolve um número diferente. Um guia de camping da vila publica 30 quilômetros numa página e 23 em outra, do mesmo site. A Prefeitura de Conceição da Barra registra vinte e nove quilômetros ao norte da sede. Uma pousada local anota 27 quilômetros, dos quais 20 de chão. Um fórum de viagem de 2005 marca 25. Entre o menor e o maior valor publicado há sete quilômetros de diferença, 30% sobre o menor, e nenhuma das fontes diz se está medindo linha reta ou percurso de carro.

Medimos as duas coisas na base aberta do OpenStreetMap, em 24 de agosto de 2026. Em linha reta, entre o ponto do distrito de Itaúnas e o da sede municipal, são 18,5 quilômetros. Traçando o trajeto pela malha viária mapeada, a rota rodoviária dá 25,5 quilômetros e cerca de 29 minutos. A razão entre percurso e linha reta fica em 1,38, valor comum em estrada que contorna vale e curso d’água em vez de cortar reto.

O número medido cai no meio da faixa publicada e explica parte da confusão: quem cita 23 ou 25 quilômetros está perto do percurso real, quem cita 29 ou 30 provavelmente parte de outro ponto da sede ou soma o trecho de chão de forma diferente. Duas ressalvas honestas. O OpenStreetMap é base colaborativa, então o traçado depende de quem mapeou o trecho, e o ponto de partida dentro da sede muda o resultado em até um ou dois quilômetros. A extensão do trecho não pavimentado também varia conforme a manutenção do ano, o que ajuda a entender por que fontes de épocas diferentes registram números diferentes.

Dá para chegar a Itaúnas sem carro?

Dá, com uma baldeação. A viação Águia Branca comercializa o trecho entre Conceição da Barra e Itaúnas no próprio site de passagens, o que confirma que existe linha regular ligando a sede à vila; horário e disponibilidade mudam por temporada e merecem conferência antes de fechar a viagem, porque a operação de baixa estação não é a mesma do verão. Consulta feita em 24 de agosto de 2026. Quem vem de fora do estado costuma montar o trajeto em duas pernas: rodoviária de São Mateus ou de Conceição da Barra primeiro, transporte local depois.

De carro, o acesso à vila sai de um trevo na ES-421, antes de chegar à sede, para quem desce da direção norte, segundo o guia ES Brasil, em material de novembro de 2024. É a mesma lógica de acesso das outras vilas do litoral norte que aparecem no roteiro das praias do Espírito Santo: a rodovia estadual corre por dentro e cada distrito tem seu entroncamento.

Chegando lá, o carro perde a serventia. A vila é pequena, o estacionamento fica na entrada e a travessia até a praia é sempre a pé ou de bicicleta, pelo interior do parque. Quem vai na temporada do festival de forró de Itaúnas encontra a vila fechada para veículo em boa parte da noite, o que muda o cálculo de onde deixar o carro. Se Itaúnas for uma parada de um roteiro maior, vale ver como ela se encaixa no que fazer no Espírito Santo antes de fechar as diárias.

Da última rua da vila até a água são 657 metros de areia

Medi a travessia na base aberta do OpenStreetMap em 27 de agosto de 2026: entre o ponto mais a leste da última rua da vila e a linha d’água há 657 metros, dos quais 616 até o começo da faixa de areia molhada. A faixa de dunas em si mede de 73 a 267 metros, conforme o ponto onde se cruza, e o campo de dunas mapeado ocupa 0,26 quilômetro quadrado.

A distância decide o que cabe na mochila. Não existe rua, calçada, quiosque nem estacionamento nesse trecho, então água, guarda-sol e comida atravessam a areia junto com o visitante, na ida e na volta, sem ponto de reposição do outro lado. Para comparar com outra praia capixaba de faixa estreita, na Lagoa do Siri, em Marataízes, são 35 metros de restinga entre a água doce e o mar.

Sobre quantas praias existem ali, as fontes não batem. A lista de praias de Itaúnas no TripAdvisor, consultada em agosto de 2026, traz quatro nomes: Praia Itaúnas, Riacho Doce, Coqueiros e Gesuel. Na base do OpenStreetMap existe um único polígono de praia nomeado no distrito inteiro, “Praia Itaúnas”, com 0,84 quilômetro quadrado de faixa de areia. Os outros três nomes circulam entre visitantes e pousadas e não têm registro cartográfico próprio.

O mapa mostra um caminho de carro a 3 metros da água, e a norma do parque proíbe

Na mesma base do OpenStreetMap, o caminho mais próximo da linha d’água é a Trilha do Pescador, registrada como leito natural, a 3 metros do mar. A via classificada como estrada para automóvel mais próxima para a 296 metros. Quem consulta só o mapa conclui que dá para encostar o carro na areia.

A norma do parque diz o contrário, e está em caixa alta na página do Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema): é proibida a circulação sem autorização de veículos a motor nas praias, dunas e trilhas. A mesma página lista as outras vedações, que são fogo, coleta de material, caixa de som ligada e animal de estimação.

O resto das regras é curto. A visitação é gratuita e o Centro de Visitantes abre todos os dias, das 8 às 17 horas, conforme a página do Iema consultada em 27 de agosto de 2026. O parque tem 3.481 hectares e foi criado pelo Decreto estadual 4.967-E, de 8 de novembro de 1991.

Uma divergência de nomes atrapalha quem procura placa na trilha. O Iema lista Trilha do Tamandaré, Trilha Buraco do Bicho e Trilha da Borboleta; o OpenStreetMap registra Trilha de Tamandaré, Trilha do Boraco do Bucho e Trilha da Cacimba, e não tem a da Borboleta. Confirme o nome no Centro de Visitantes antes de seguir por conta própria.

Da duna para o forró

As dunas são a porta de entrada do litoral norte capixaba, o extremo oposto das praias de Guarapari no mapa do estado. De volta à vila, o roteiro clássico fecha com uma moqueca capixaba e forró pé de serra na noite. Se você já fez a travessia, qual metade valeu mais a caminhada: as piscinas da maré baixa ou o pôr do sol visto lá de cima?

Foto de capa: o campo de dunas do Parque Estadual de Itaúnas visto da trilha entre a restinga, registro de 2017 de Lemoris, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0, recortada.

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